quarta-feira, 22 de julho de 2009

COMO SE VIVE NUM MUNDO DE GIGANTES


Recém chegados à lista de portadores de deficiência os anões eram, até pouco tempo, vistos como personagens circenses. Muita gente ainda vê assim, mas o que pouca gente vê é que eles são pessoas capacitadas e vivem uma vida praticamente normal, têm amigos, constituem família, seguem carreiras profissionais nas mais variadas áreas. Muitas delas longe de palcos e da imagem que a maioria tem deles. Acontece que eles têm uma enorme dificuldade de levar suas vidas de forma independente aqui no Brasil, não porque não sejam capazes disso, mas porque no Brasil ainda se trabalha com “padrões” e “médias”. É só andar pela cidade com mais atenção para perceber que tudo é feito para a “maioria”. A universalização das vias públicas, a acessibilidade, estas não saem do papel com tanta facilidade. Que dizer dos balcões de lojas que não permitem ver alguém abaixo de 1m, dos botões de elevador que ficam a 1,20m, para não falar do botão do 22º andar que pode provocar um enorme constrangimento até para aqueles que nem são portadores da síndrome, dos famigerados caixas eletrônicos, muito debatido entre os grupos de pessoas que vivem abaixo da altura de uma criança de 8 anos e tantos outros exemplos de descaso com as pessoas de baixa estatura. Outros países já estão bem melhor adaptados aos problemas deste e de outros grupos de pessoas que não se encaixam na “média”. Aqui eles vão vivendo, como heróis, diga-se de passagem, enfrentam um mundo todo dia que não foi pensado para eles, que não foi feito para todos. Saem de casa e enfrentam ônibus, trens, ruas e escadas para cumprir percursos simples para a “maioria”. Tudo isso em silêncio. Com toda a áurea de espetáculo que as pessoas insistem em colocar neles, talvez tenham necessidade de anonimato. Nesse caso não deviam. Lutar pelos direito de ir e vir que está na constituição não deveria ficar para depois. É difícil, no Brasil há o hábito do “deixa disso”. Todos nós achamos que lutar não dá em nada. Mas, quando grupos como os dos anões conquistam um direito, mesmo que ele primeiro tenha que vir na forma de lei, quem ganha é a sociedade. Não se pode achar que estamos em um mundo de igualdades quando ainda ignoramos quem é diferente de nós. Há algum tempo – pouco, é verdade! – aprendemos que somos todos iguais, agora chegou a vez de reconhecer que todos na sociedade tem um papel a desempenhar e cabe a essa sociedade permitir que todos, fora de padrão ou não, possam desempenhá-lo. Ninguém precisa ser carregado, os anões não querem caridade, eles querem ser respeitados, querem ter o direito de cumprir com a sua parte. Não é tão difícil. Com um pouco de criatividade, e até copiando algumas coisas que já dão certo lá fora, é possível repensar certos conceitos e tornar o Brasil um país de todos, mesmo.

Gabriela Bretto – Estudante do Curso de Design de Interiores da UVA

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Uma Experiência de viagem

Março de 2006, fim de verão, dia de sol em Florianópolis. Cidade de minha família por parte de pai mas só havia estado por lá, de passagem nos anos 70. Muitos edifícios novos na orla, a ponte do velho “Hercílio Luz”, uma linda paisagem natural sem registros na minha memória.
Estava hospedada num hotel que era puro espetáculo formal: piscinas, cascatas, ondas, caminhos (ou descaminhos ?), vegetação, cores, prismas entrelaçados. Em meio a este encantamento, num momento de descanso, passei por uma experiência que me fez repensar conceitos e vivências, fui ao SPA.
Aguardava tranquilamente na sala de espera a minha vez, quando um rapaz anunciou meu nome e eu o acompanhei. No meio do pequeno percurso percebi que ele não enxergava porque, de modo muito discreto, ele reconhecia o caminho pelo dedo na parede que o alertava para vãos de portas, paredes e viradas no corredor.
Chegamos na saleta (cubículo), ele se desculpou por me deixar esperando (nem tanto) com a seguinte interjeição: “Eu não vi a senhora na sala” e diante do meu silêncio ele completou: “mas não ia adiantar nada ... eu não enxergo mesmo !!!” Confesso me sentia um pouco desconfortável, deitei na maca e pensei que talvez fosse melhor não racionalizar e aproveitar a massagem. Foi o que ocorreu nos dez primeiros minutos, onde nós dois estávamos em silêncio. Quando me certifiquei que aquele pseudo relaxamento e aquela musiquinha zen estavam causando um efeito contrário, o que fiz eu ? Puxei uma conversa que durou o restante da sessão. Se eu tivesse como objetivo fazer uma entrevista com pessoa deficiente visual não teria sido tão rica e tão espontânea quanto aquele “momento relaxante”.
Milton, este é o seu nome, um sujeito de bem com a vida, independente e cheio de projetos. Mora no continente (de Florianópolis), vai e volta do trabalho sozinho, viaja, tem amigos, profissão – ele é ótimo no que faz e tem um hobby, o computador. Foi justamente aí que encontramos nossos pontos de contato, falamos do DOSVOX, software especial para deficientes visuais, além de outros menos ou mais eficientes ... Aprendi muito sobre esta possibilidade de interagir com o mundo.
Ele me contou também que gostava de música, segundo Milton, todo deficiente visual gosta de música. É um noveleiro, adora estas revistas de fofocas de artistas ... Qual minha surpresa quando soube que existem algumas “revistas faladas” ?
Comentou quão difícil está o mercado de trabalho para os videntes, e que eu poderia imaginar como complicava para os deficientes visuais. Mas que não podia reclamar, ele possuía muitos e bons clientes. Impressionou-me sua perseverança, repetiu algumas vezes que quando queria uma coisa, ia à luta. Exemplificou voltando ao computador, onde aprendeu o que sabia (e não era pouco) “fuçando” sozinho. E quase no final da nossa animada massagem ele me disse que estava juntando dinheiro para comprar um computador, só dele !
A massagem terminou e Milton me deu seu cartão de visita com a recomendação que eu deveria consertar uma letra errada no e-mail ao que eu respondi: vou pegar meus óculos, sem eles não enxergo nada e ele retrucou com muito humor: você está pior que eu, hein amiga ??!!
60 minutos. Massagem. Conhecimento. Lição. Vida


Dra. Lourdes Luz
Coordenadora Geral do Núcleo de Pesquisa Vida sem Barreiras/UVA
26/março/2006

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