quarta-feira, 22 de outubro de 2008

NOVAS HABITAÇÕES VÃO TER QUE RESPEITAR REGRAS DE ACESSIBILIDADE

“Meu nome é Marco Antônio de Queiroz e sou cego. Isso para mim não é muito significativo, pois convivo com minha deficiência visual, no caso deficiência visual total, há muitos anos e consigo, com bastante entusiasmo, driblar inúmeros limites que a cegueira coloca na minha frente.

Li, a algum tempo, numa revista da UNESCO, que o limite que cada deficiência coloca diante do deficiente, depende da cultura e desenvolvimento tecnológico de cada país. Fiquei pensando nessa afirmativa e no conteúdo por inteiro do que o artigo dizia.”Será que o cego americano é mais deficiente que nós brasileiros?” A resposta é simples: é. As pessoas com deficiência dinamarquesas, no entanto, têm menos limites ainda que americanas... e por quê? Se as calçadas possuem sulcos para se colocar a bengala e seguirmos os caminhos, se possuem pisos de densidade diferentes destacando, a cada densidade, que estou passando pela porta de um banco, farmácia, correios e etc.... Se existem semáforos sonoros e se a cultura daquele país obriga as pessoas a não ultrapassarem o sinal (semáforo), se existem rampas adequadas, se todas as mensagens sonoras são transcritas para os surdos, cada pessoa com deficiência terá seus limites diminuídos e poderá exercer sua cidadania, mas que isso, exercer sua vida, com todas as suas diferenças, no entanto, mais igualitariamente.”

Fonte: mensagem do yahoogrupo “acessibilidade”
MAQ - Bengala legal - Cegos e Família: http://www.bengalalegal.com/

CADEIRAS DE RODAS PARA BANHO DE MAR SÃO GARANTIDAS POR LEI

As pessoas portadoras de deficiência física terão acesso às praias do estado com cadeiras de rodas especiais que podem se mover tanto na areia quanto na água. É o que determina a lei 4.812/06, sancionada pela governadora Rosinha Garotinho e publicada no Diário Oficial do Executivo no dia 11 de julho.


A iniciativa obriga ao governo do estado a garantir a acessibilidade dessas pessoas à praia.
Para viabilizar a aquisição e manutenção das cadeiras anfíbias, o projeto autoriza o Executivo a firmar parcerias com empresas privadas, que arcarão com os custos do benefício em troca de expor suas marcas no equipamento. A governadora, porém, vetou o artigo que determinava a disposição das cadeiras nos postos de salvamento e o cadastro dos interessados. O veto deve ser apresentado em plenário, após o término do recesso parlamentar.



Fonte: Alerj

HOTÉIS UNIVERSAIS-QUARTOS ACESSÍVEIS A TODOS

Arq. Ana Teresa Lessa Bustani
especialista em design de Interiores pela Universidade Veiga de Almeida


Com o crescimento da Indústria Hoteleira, cabe colocar disponível, quartos que possam ser usados por qualquer cliente, independentemente de suas limitações. É importante observar que o hotel é uma empresa que funciona ininterruptamente e por isto mesmo todas as precauções no projeto devem ser extremamente esgotadas, para que não seja preciso alterações constantes.

O propósito maior do Design Universal aplicado ao planejamento físico dos espaços é combater a discriminação e promover a igualdade de oportunidades às pessoas do mundo, tornando os espaços acessíveis e inclusivos, e fazendo que a maior quantidade possível de pessoas possa utilizar os edifícios e suas instalações, independente de idade, habilidade ou situação. A sociedade deve ser inclusiva e deve-se projetar sem barreiras, hoje pessoas com necessidades especiais são excluídas de nossos ambientes construídos.

Colocando medidas necessárias para o uso e deslocamento de cadeirantes, promovendo a independência de cegos, surdos, crianças e idosos, como também prevenindo acidentes, estaremos fazendo construções inclusivas.

As limitações humanas são comuns, não são especiais, e elas afetam a maioria de nós em algum momento de nossas vidas. O importante é anteciparmos a realidade da diversidade em nossos corpos e cérebros e construirmos as soluções.

Também é finalidade assegurar conforto às unidades hoteleiras, oferecendo um ambiente que não deixe o hóspede incomodado por ruídos ou reverberação sonora, pela iluminação deficiente ou pelas condições térmicas do ambiente. Para que um ambiente tenha um bom conforto termo acústico, os projetos das esquadrias (caixilharia e vidro), do ar-condicionado, e acústico devem ser desenvolvidos paralelamente.

A proximidade dos Jogos Pan Americanos deixa claro a necessidade do preparo da necessidade do preparo da cidade do rio de Janeiro, sede dos jogos em 2007, para receber uma diversidade de pessoas, cada qual com suas necessidades específicas. Vale lembrar também que logo após os jogos, o Rio sediará também os jogos Pan-Americanos.

Existe um mercado esperando essa alteração, hoje no Brasil devido algumas pessoas ligadas à mídia (cantores, escritores, desportistas) estarem em situação de dependência física, discute-se mais as questões relacionadas a livre movimentação e participação destas pessoas na sociedade.

A Embratur recomenda que 2% dos apartamentos sejam destinados a portadores de deficiência física e a ABNT emitiu em Setembro de 1994, a NBR 9050.

No dia cinco de abril último a Comissão de constituição e Justiça e de Cidadania aprovou o substitutivo ao Projeto lei 640/03, que obriga os hotéis e pousadas do país a adaptar pelo menos 10% dos apartamentos a portadores de deficiência. Agora ela segue para aprovação no Senado Federal.

A preocupação com a independência e conforto dos hóspedes com algum tipo de limitação ainda não é um fator relevante na hotelaria. Preocupar-se na hora de projetar com as necessidades que as pessoas possam ter durante os vários estágios da vida, tanto hóspedes como funcionários é essencial nos dias atuais.

Resumo da monografia defendida em maio de 2006.

ADAPTAÇÃO DE RESIDÊNCIA PARA IDOSOS

Arq. Flávia Molina Toledo Couto

especialista em design de Interiores pela Universidade Veiga de Almeida


O número de idosos jamais foi tão grande em toda a história, portanto, são de extrema importância que se façam estudos e se desenvolvam projetos a fim de atender a essa parcela cada vez maior da população.

Segundo a OMS a expectativa de vida que em 2005 era de 66 anos para os brasileiros, passará a 78 anos em 2025. Já nos países desenvolvidos esse número pode chegar a 87,5 anos para homens e 92,5 para mulheres em 2050, o que também deixa claro que a população idosa também está envelhecendo.

Segundo o IBGE, o fenômeno é recente e vem ocorrendo de forma rápida. No Brasil a população acima de 60 anos é a que mais cresce proporcionalmente. Camada essa que necessita de leis, espaços, serviços e produtos diferenciados.

Neste estudo foi feita a adaptação de uma residência dos anos 50 para atender, de forma adequada, às necessidades das proprietárias que, com o passar dos anos, viram suas atividades domésticas sendo limitadas pelo espaço e design inadequados.

A opção por uma adaptação da residência em questão se sobrepõe à possível facilidade de deslocamento para um espaço fisicamente mais adequado devido à consideração que dá às questões familiares, suas recordações e apegos ao espaço onde se viveu a maior parte da vida.

O ambiente contribuindo significativamente para a continuidade e até o aumento de sua auto-estima. Desta forma, os espaços destinados aos idosos devem garantir sua independência através de sua arquitetura sem barreiras de condições de design ergonômicas, o que lhes garante maior capacidade de dominar o espaço e consequentemente maior segurança e conforto.

Atualmente busca-se maior flexibilidade para adaptação do ambiente à pessoa idosa e para atender a estas necessidades algumas características são bastante significativas como pisos regulares, antiderrapantes e sem polimento, barras de apoio, luz de vigília, ventilação natural,maior iluminação ( indica-se 3 vezes mais potência) e com pontos não ofuscantes., espaços para cadeiras de rodas, conforto visual, acústico, térmico e tátil, além dos botões de emergência.

A pessoa idosa possui menos poder de visão e isto deve ser considerada em projetos destinados a terceira idade. Assim é interessante que utilize interruptores com tecla iluminada, sensores de presença, dimmer, focos para detalhe e leitura, objetos e acabamentos que não reflitam muito a luz, iluminação difusa e indireta para diminuir o ofuscamento, além de arandelas e balizadores.

Os espaços de circulação também devem ser projetados com cautela e devem possuir passagem suficiente para cadeirantes e/ ou auxiliares nos casos dos idosos, apoios ao longo do percurso além de espaços para descanso, inclusive com assentos.
Cozinhas e banheiros merecem um cuidado especial. No primeiro caso é interessante que se utilize bancadas com tampos reguláveis e não muito profundos, alturas fixas definidas conforme a limitação do usuário, prateleiras de apoio, piso regular, firme, estável, sem polimento e antiderrapante, utensílios de plástico ou silicone além de um carrinho para o transporte. No caso dos eletrodomésticos é interessante que fiquem em locais baixos para facilitar sua retirada de manuseio e, além da instalação de sensores de gás e fumaça.

No segundo caso, a privacidade e independência são elementos cruciais. Entretanto, não podemos esquecer dos momentos em que os idosos podem necessitar de ajuda e para tal o espaço deve ser grande o suficiente para ser utilizado por cadeirantes ou permitir que o idoso tenha o auxílio simultâneo de duas pessoas.

Outro item essencial é a abertura das portas no sentido da fuga. O vaso sanitário com altura de 0,50m do piso e abertura frontal facilita a utilização e a válvula de descarga deve estar a uma altura de 1,00m e ser acionado com uma leve pressão. As barras de apoio devem estar sempre presentes para que o idoso não se apóie em objetos e devem ser agradáveis ao tato.


Resumo da monografia defendida em maio de 2006.

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

A CONSTRUÇÃO DE UMA EXPERIÊNCIA AFETIVA POR PESSOAS COM DIFICULDADE DE LOCOMOÇÃO *•



Duarte, Cristiane Rose e Cohen, Regina

RESUMO

O artigo procura compreender a percepção e a experiência espacial nos espaços urbanos a partir da mobilidade de Pessoas com Dificuldade de Locomoção (PDLs) (que se locomovem em cadeira de rodas ou com o auxílio de muletas, pessoas com deficiência temporária ou permanente, pessoas idosas, mulheres grávidas, pessoas obesas, pessoas de baixa estatura, entre outras). Uma versão deste trabalho foi apresentada no Seminário Internacional Sociedade Inclusiva, realizado na PUC-Minas em maio de 2004.

O artigo tem como base os estudos voltados para a psicologia ambiental e parte da compreensão de que a consciência de mundo é criada a partir dos sentidos despertados nas imagens mentais dos lugares. Estas imagens conduzem ao desenvolvimento de significados individuais dentro do universo de diferentes grupos culturais.

Para melhor compreender as possíveis apreensões do espaço pelas PDLs, este artigo comenta que a diferença no caminhar leva a diferentes maneiras de percepção, dificulta a compreensão dos significados do espaço e afeta o comportamento social, uma vez que este grupo percebe o ambiente de outros ângulos de visão.

Finalmente, o artigo mostra que a deficiência física deve ser vista basicamente como um estado de limitação entre o sujeito e o contexto de suas atividades. Esta deficiência poderia ser minimizada através de uma correta concepção do ambiente construído.

Introdução

Algumas correntes voltadas para os aspectos psico-culturais do espaço têm contribuído para o estudo da experiência dos usuários das cidades, subsidiando projetos de arquitetura e de desenho urbano. Pesquisadores que se debruçam sobre o estudo do desempenho do espaço construído têm procurado aperfeiçoar metodologias para aferir o grau de satisfação dos usuários do ambiente urbano.

Pode-se perceber, através destes estudos, que, apesar da produção do espaço urbano continuar sendo feita, em grande parte, a partir dos referenciais do chamado “homem-padrão” (possuidor de todas as habilidades físicas, mentais e neurológicas), temos assistido, nas últimas décadas, ao surgimento de um crescente número de trabalhos com abordagens mais holísticas do meio ambiente. Estes estudos se limitam, geralmente, a estudar as características de acessibilidade física de pessoas portadoras de deficiência para subsidiar propostas de readequação dos espaços públicos.

Sob esta ótica, por exemplo, é comum que a construção de rampas nas esquinas e de uma determinada percentagem de vagas para estacionamento de veículos adaptados às pessoas com deficiência física sejam considerados como “suficientes” para taxar o projeto urbano de “projeto inclusivo”. A percepção e a experiência de todos os usuários, no entanto, nem sempre é levada em consideração nestes momentos.

Desta forma, a fim de subsidiar uma reflexão sobre as diferentes experiências dos usuários do espaço urbano, este artigo procura enfocar uma categoria de habitantes nem sempre considerada por profissionais ligados ao planejamento das cidades: as Pessoas com Dificuldade de Locomoção (PDL). Para os propósitos deste artigo, serão consideradas como PDLs os dependentes de cadeira de rodas, de muletas, os idosos, as gestantes, os obesos, pessoas com deficiências temporárias, entre outros, que constituem um contingente bastante numeroso de usuários da cidade.

EXPERIÊNCIA dos Espaços Urbanos

Ressaltamos, antes de tudo, que as análises apresentadas neste trabalho baseiam-se nos dados de pesquisas desenvolvidas pelo Núcleo Pró-acesso, vinculado ao Programa de Pós-graduação em Arquitetura da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Duarte & Cohen, 1997, 1999 e 2001). As pesquisas que têm sido desenvolvidas, preocupam-se em analisar as relações que se estabelecem entre o espaço construído e alguns dos diferentes segmentos da população urbana, como cegos, idosos, deficientes físicos, entre outros.

No caso excepcional do presente artigo, escolhemos analisar apenas as Pessoas com Dificuldade de Locomoção (PDL) e suas diversas maneiras de perceber e experienciar a cidade. Esta escolha se deu apenas com o objetivo de colocar em evidência a existência de uma multiplicidade de formas de apreensão do espaço urbano e de enfatizar a importância de se estar atento às especificidades que influenciam as diferentes formas de experiência que as pessoas desenvolvem em relação aos espaços da cidade.

Para estudar e analisar a experiência dos espaços por PDLs, estaremos nos voltando para dois importantes fatores norteadores do processo cognitivo: o sentido da visão e as características do deslocamento.

Para Kevin Lynch (1988), o desenvolvimento dos aspectos estruturadores da percepção do espaço estão vinculados, em primeiro lugar, ao sentido da visão, responsável pelo primeiro impacto criador de significados do ambiente. De acordo com o autor, é essencial a sensação produzida pelos sentidos, principalmente a visão, para uma completa estruturação mental destes mesmos lugares.

Yi-fu Tuan (1980: 7), por sua vez, aborda a grande dependência visual para organizar o espaço sugerindo que a representação da realidade é construída quando, por meio dos “sentidos e das funções mentais ativas e reflexivas”, se dá a experiência do espaço (1983:19)

Já para a Fenomenologia da Percepção, conforme Merleau-Ponty, é necessário compreender não apenas os diversos ângulos de visão, mas também como eles se modificam à medida em que as perspectivas são alteradas através do deslocamento do indivíduo (Merleau-Ponty, 1976, p.103), formando um sistema integrado.

Seguindo por esta mesma linha, Elaine Kohlsdorf (1996), que estuda as formas pelas quais os diferentes ângulos de visão resultam em percepções que passam a compor o conhecimento do espaço ao longo de deslocamentos. Segundo a arquiteta, são características que devem ser levadas em consideração na análise da percepção do espaço: - “presença física e temporal de sujeito e objeto da percepção, considerando as informações provenientes dos pontos de vista onde se situa o observador; condicionamento da percepção pelo modo de locomoção do observador; (...)” (Kohlsdorf, 1996, p.46).

Os Diferentes Ângulos de Visão

Para compreender as diferentes e possíveis maneiras de apreensão do espaço por PDLs, precisamos verificar de que formas a visão participa da apreensão dos espaços, uma vez que as PDLs vêem o ambiente a partir de outros ângulos de visão.
Para a compreensão de que as PDLs representam uma categoria heterogênea de usuários da cidade, torna-se necessário, aqui, discorrer sobre algumas especificidades do olhar destas pessoas.

Uma pessoa que se locomove em cadeira de rodas, terá um outro ângulo de visão que se situa a cerca de 1 metro do chão. Sua percepção do espaço em muito difere daquela desenvolvida por pessoas que se locomovem a pé (quando o ângulo de visão se situa, por exemplo, a 1,60m do piso). Sob esta perspectiva, a visão que se tem do ambiente de um ângulo bem mais próximo ao chão ficará comprometida devido à barreiras visuais encontradas. Qualquer mobiliário urbano que tenha altura maior que 80 cm, se tornará um obstáculo visual para o cadeirante. Assim, a percepção da cidade será fragmentada e constituída de muitas surpresas pois só permitirá a visão de determinados objetos que se situem próximos.





Figura 1: Qualquer mobiliário urbano que tenha altura maior que 80 cm, se tornará um obstáculo visual para o cadeirante”







Por outro lado, para a pessoa que precisa de bengalas ou muletas e de olhar para o chão, apoiando sua bengala em locais firmes, a apreensão do espaço será diferente daquela percebida por pessoas que se locomovem olhando “para frente”, “para o alto” ou “para o horizonte”, sem a preocupação de desequilíbrio.

As pesquisas que efetuamos na cidade do Rio de Janeiro demonstraram que não existe um único bairro, nesta cidade, que ofereça um percurso contínuo, entre dois pontos de interesse reconhecido, que seja desprovido de irregularidades no piso ou de pequenos obstáculos que obrigam a uma constante atenção ao longo do deslocamento de muletantes. Através dos questionários aplicados a esta categoria de usuários, verificamos que essas PDLs que necessitam desse ângulo de visão constantemente “para baixo”, dificilmente formam uma visão panorâmica dos espaços. A percepção espacial destas pessoas se desenvolverá a partir de um diferente caminhar que busca identificar locais livres de barreiras para evitar quedas. Pode-se acrescentar neste grupo de PDLs os idosos que também são obrigados a se “auto-condicionar a olhar para o chão” (figura2).





Figura2 : a maneira de se deslocar e o ângulo de visão imposto pelas dificuldades no caminhar influenciam sobremaneira a experiência e o afeto pelos lugares











Já as gestantes e os obesos pertencem a um outro grupo de PDLs que tenta olhar para o chão mas não consegue ver seus pés. Isto poderá gerar uma grande insegurança no ato de deslocar-se, comprometendo a apreensão do espaço. Estas pessoas, assim como no os muletantes, dificilmente terão um olhar para o alto, uma visão geral ou panorâmica do entorno, mas sim uma visão pontual, fragmentada e limitada pela dificuldade de locomoção.

As Dificuldades nos Deslocamentos

Com o que acaba de ser dito, pode-se supor que a tentativa de compreensão da forma de apreender o espaço por uma PDL também deve considerar sua forma de deslocamento no espaço. Este deslocamento vai pressupor uma relação entre o tempo e o espaço, representando uma energia despendida ao longo da locomoção.

Para Tuan (1983), o meio-ambiente constitui-se no elemento essencial para a estruturação mental da relação espaço-tempo, pois a cognição da realidade se dá a partir de noções espaço-temporais: “o tempo está implícito em todos os lugares, nas idéias de movimento, esforço, liberdade, objetivo e acessibilidade”(1983: 96).

O aumento de energia despendida, devido à dificuldade de locomoção, estabelece uma relação inexorável entre “o espaço” e “o esforço” compreendida a partir da extensão de um cansaço físico que empresta sua medida à percepção espacial de uma PDL. Muitas das dificuldades para se deslocar de um ponto a outro do espaço urbano podem representar tanto um desafio a ser superado, quanto um cansaço desencorajante em seus movimentos reduzidos, mas dificilmente um convite ao prazer de usufruir dos lugares.

Aspectos referentes ao espaço como distâncias, percursos, “longe” e “perto” passam a ser medidos pelo esforço, pelo cansaço e não podem ou devem ser compreendidos a partir de referenciais de pessoas que não apresentam nenhuma dificuldade em seus deslocamentos. Por estas razões, em nossa análise da percepção de uma PDL, tivemos a preocupação de também levar em conta o fator tempo, porque sua percepção espacial estará, inevitavelmente, condicionada por ele. Com suas dificuldades de locomoção, a PDL necessitará de um esforço adicional e um espaço de tempo suplementar para uma distância de percurso menor.

As PDLs que entrevistamos em nossas pesquisas revelaram que seus deslocamentos na cidade são definidos em função do fator tempo e das possibilidades oferecidas pelo espaço. Percebemos também que os suportes espaciais destes deslocamentos são vividos pela maioria das PDLs como “trajeto” e nunca como lugares a serem experienciados. A experiência dos lugares, para estas pessoas, só se dá, geralmente, quando precisam “parar para conhecer melhor o lugar onde estão” (Duarte & Cohen, 1997: 43).

Afeto e Lugar

A Experiência dos espaços estrutura os padrões de identificação do sujeito com o meio ambiente. Segundo Tuan (1983: 10), “experienciar é aprender, compreender; significa atuar sobre o espaço e poder criar a partir dele”. Portanto, é necessário que o processo cognitivo se desenvolva através da percepção e da apreensão do espaço para que o indivíduo possa conhecê-lo e ter a consciência da possibilidade de sua atuação sobre ele.

A relação entre experiência e o conhecimento de um espaço se constitui, para Rapoport, no locus de ação das pessoas, “visto que o que não se conhece não pode ser objeto de oportunidades para atuar” (Rapoport, 1978, p.43). Assim, podemos imaginar que uma diferente cognição do ambiente resultará numa diferente experiência do espaço. (figuras 3 e 4).




Figura 3: o desenho de um abiente feito por um rapaz - notar o diálogo visual com a cidade , o dentro e o fora, as proporções...
Figura 4: o mesmo ambiente retratado por uma criança cadeirante: o espaço ensimesmado é distorcido e o ambiente parece engolir o observador
Michel Maffesoli (1990) ressalta que as diferenças de percepção entre os diferentes grupos “tendem a formar comunidades unidas por laços afetuais e territoriais, (...)”.
O afeto que se tem de um lugar está portanto atrelado à experiência que se pode ter neste espaço. Tuan (1983) considera que as pessoas podem desenvolver afetividade pelos espaços quando estes se transformam em lugares, permitindo uma real experiência espacial.

Sob esta ótica, para uma PDL, o processo cognitivo com relação à cidade, os valores, significados e interpretações atribuídos ao ambiente construído serão condicionados por suas diferentes posturas corporais e dificuldades de locomoção. Assim, pode-se compreender que, para que uma PDL possa criar experiências afetivas dos espaços e se identificar com a cidade em que habita, é preciso que ela seja capaz de se introduzir em seus espaços com seu corpo e seus sentidos, e que estes lhe permitam que sua experiência espacial se concretize de forma satisfatória.

Os resultados de nossas pesquisas têm demonstrado que a dificuldade de locomoção, ao impor diferentes ângulos de visão e diferentes tipos de deslocamento nos espaços da cidade, dificulta o estabelecimento de uma experiência do espaço satisfatória. A impossibilidade de experienciar adequadamente os espaços faz com que muitas PDLs não saiam de suas casas e percam o contato com o mundo ou, então, que permaneçam em instituições ao abrigo da caridade e do paternalismo.

Ao serem impedidas de experienciar os espaços construídos como a maioria das pessoas, as diferenças concretas das PDLs ficam ainda mais evidentes e geram o peso psicológico da realidade de pertencer a uma minoria, contribuindo para o processo de segregação psico-social e de exclusão espacial.

Diversos depoimentos de PDLs coletados, nos fizeram crer que é quando se deparam com um impeditivo, seja de ordem física ou gerado pelo preconceito e pela discriminação, que estas pessoas, efetivamente, se vêem como “diferentes”, passando a achar que as outras pessoas que usam os espaços urbanos as olham com desprezo, e desenvolvendo então sentimentos de inferioridade.

Neste círculo vicioso, vemos que os espaços construídos excluem as minorias de PDL que, por sua vez, deixam de se considerar como agentes passíveis de inclusão no espaço e passam a rejeitar os lugares, acelerando ainda mais o processo que os afasta do convívio com os demais habitantes da cidade. A exclusão espacial e a exclusão social passam, então, a significar praticamente a mesma coisa.

O trabalho de Tuan (1983) nos demonstra que os “pincípios fundamentais da organização espacial encontram-se em dois tipos de fato: a postura e a estrutura do corpo humano e as relações entre as pessoas. O Homem como o resultado de sua experiência íntima com o seu corpo e com outras pessoas, organiza o espaço a fim de conformá-lo a suas necessidades biológicas e relações sociais” (1983: 39). A impossibilidade de vivenciar o espaço da mesma forma que outro usuário representa uma barreira ao relacionamento; barreira esta que pode, em muitos casos, ser considerada maior do que os obstáculos físicos do espaço urbano.
Percebemos, então, que, um espaço construído com barreiras poderá estar acentuando a deficiência de uma PDL, aumentando sua dificuldade e tornando-a incapaz de viver uma vida cotidiana ativa. Desta forma, muitas das limitações e incapacidades das PDL não se devem a uma falta de habilidade de se adaptarem ao ambiente, mas a uma deficiência do espaço construído de abrigar diversidades. Neste caso, a deficiência em si não é o fator causador da imobilidade e sim a falta de adequação do meio.

Constata-se assim que tudo o que afasta uma PDL de sua plena capacidade de apreensão do mundo e de sua consciência existencial (sua dificuldade de locomoção, sua aparência ou sua diferença, por exemplo) poderá ser reduzido à condição de sua simples dificuldade se sua vida cotidiana urbana for sustentada por uma cidade universalmente acessível.
Considerações finais

O estudo por nós desenvolvido, revela uma diversidade de cotidianos encontrados nas cidades. Diferentes ângulos de visão, pontos de vista, formas de locomoção, maneiras de percepção e necessidades espaciais podem requerer meios adaptados que permitam experiências dos espaços de maneira satisfatória para um maior número de habitantes.

Tentamos demonstrar que as diferenças de postura corporal de uma PDL se caracterizam pelo fato de elas se locomoverem seja em cadeira de rodas, seja por meio de muletas ou de alguma outra maneira diferente da postura de uma pessoa completamente ereta, afetando seu campo de alcance visual na percepção, comportamento e experiência dos espaços urbanos. Para uma PDL capaz de assumir uma posição ereta (o caso da gestante ou de certos idosos), haverá uma diferença no tempo despendido para a realização de seus percursos pelas ruas, o que ocorre também com o cadeirante, o muletante e outras PDL.

Apesar de alguns autores terem por muito tempo enfatizado a necessidade de adaptação das pessoas às circunstâncias ambientais, outros, inversamente, vêem no ambiente construído as causas para determinados conflitos humanos. Podemos afirmar, com outras palavras, que as características físicas e pessoais e as dificuldades de locomoção se constituíram por muito tempo na explicação para o desajuste social das PDL. No entanto, hoje em dia, já é possível encontrar, em diversas áreas do conhecimento, teorias e conceitos que buscam vincular o comportamento humano com o meio.

Lewin (1951) estuda o ajuste pessoa-ambiente baseado na idéia que o comportamento das pessoas é uma função direta tanto das atitudes individuais quanto do contexto do ambiente circundante. O determinismo ambiental defende que o meio ambiente físico determina o comportamento humano. Assim, quando houver uma boa adaptação do meio, as existências das PDL poderão ser bem sucedidas e acompanhar o progresso do desenvolvimento social. Seguindo a linha de um modelo de planejamento e desenho deterministas, pode-se crer que as dificuldades de certas pessoas para se locomoverem não seriam limitações para a sua integração na cidade.
Quando se fala em acessibilidade e Desenho Universal, compreendemos que, muito mais do que a preocupação com a eliminação de barreiras urbanas, devemos pensar o espaço inclusivo como sendo aquele que permite (inclusive às PDLs) a opção de experienciar os espaços. Ou seja, a compreensão do ambiente passa pela consciência de que é possível (ou não) dirigir-se e circular por todos os espaços da cidade, mesmo aqueles situados além da possibilidade de ser visto. Nesse contexto, pode-se acreditar que “espaços inclusivos” sejam aqueles capazes de fornecer à PDL um sentimento de segurança, competência e liberdade na sua dificuldade de locomoção com vistas a dirigir as suas ações, podendo estabelecer uma relação harmoniosa dela com o mundo exterior.

Pode-se acrescentar que o espaço, a imagem e a experiência afetiva que ela tem de espaciosidade, uma vez relacionados, poderão facilitar seu conforto e a rapidez dos seus deslocamentos.

Para Norberg-Schulz isto significa que para que uma pessoa possa habitar uma cidade ela deve conseguir “se orientar em um meio e se identificar com ele, ou mais simplesmente, desde que experimente a significação do meio.” (Norberg-Schulz, 1981, p.5).

Consideramos assim a deficiência física como o resultado de uma limitação que ocorre por uma fraca relação entre o sujeito e o meio ambiente. Entendemos que esta deficiência poderia ser minimizada, através de uma correta concepção espacial a ser posta em prática.

Concluímos, assim, que o espaço construído dentro de certos parâmetros que visam a “inclusão espacial” destes grupos, terá a capacidade de permitir as trocas, estimular o estabelecimento de teias de relações, valorizar as experiências dos lugares e evitar o esfacelamento das individualidades, atenuando as diferenças.

Referências Bibliográficas
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Apresentação do DSGN 01 – 2005

Lourdes Luz e Nara Iwata
O motivo que nos reúne, alunos e professores, em torno desta publicação é o comprometimento que temos com o ensino, a pesquisa e a produção do conhecimento. Os artigos ou ensaios que compõem esta coletânea estão diretamente ligados a temas contemporâneos do design de interiores e paisagismo. Não há um tema principal que interligue os textos, visto que apostamos em uma abordagem mais livre, na qual o corpo discente pode fazer escolhas. E, a nós professores, coube selecionar os melhores trabalhos a partir de quatro temas gerais, os quais não têm como objetivo fechar questões; ao contrário, se propõem a gerar novas reflexões.

Assim, os quatro primeiros artigos apresentados – “Acessibilidade, análise de um projeto: uma casa democrática”, de Volnei Malaquias; “Acessibilidade: análise de uma clínica odontológica”, de Fernanda Mansur; “A imagem acolhedora de uma clínica oftalmológica”, de Tania Pavanelli; e “Ambiente Seguro: importância da funcionalidade e acessibilidade no mundo da maior idade”, de Beatriz Gadia – são os primeiros resultados do grupo de pesquisa "Vida sem barreiras", da Escola de Design da Universidade Veiga de Almeida. O núcleo de pesquisa sobre acessibilidade envolve alunos da Graduação e da Pós-Graduação com diferentes enfoques e tem como objetivo pesquisar e sistematizar a forma pela qual o ser humano, em qualquer situação de dificuldade física, permanente ou temporária, pode manter um mínimo de individualidade e independência, com maiores chances de sobreviver às doenças e aos impedimentos referentes à sua situação.

Os dois artigos seguintes – “Loft residencial: estudo do conceito original em proposta de habitação”, de Álvaro Pilares, e “Apartamento ‘tipo loft’: um estilo próprio de morar”, de Christiane Barroso – tratam de um novo modo de viver antenado à contemporaneidade que são os lofts. O estudo desse tipo de moradia, nascida na Nova Iorque da década de 1940, transformada em símbolo de status nas décadas seguintes e que hoje começa a integrar a paisagem brasileira, integra o contexto das pesquisas sobre os “modos de morar”, relacionando as transformações sócio-econômico-culturais aos espaços da casa.

Além disso, a Escola de Design/UVA valoriza soluções brasileiras no sentido histórico, cultural e ambiental, o que nos leva a uma preocupação efetiva com nosso patrimônio edificado. Os ensaios “Projeto de Intervenção para o Park Hotel: Nova Friburgo”, de Christiane Barroso e Cynthia Lisboa, e “Hotéis contemporâneos na orla de Copacabana: relação entre imagem institucional e projeto de arquitetura de interiores”, de Rosângela Pinto e Maria Carolina Gonçalves, são nossos melhores exemplares nesta linha, quer na brasilidade de Lucio Costa ou na influência estrangeira na arquitetura dos hotéis da orla de Copacabana.

Como fechamento desta coletânea buscamos dois artigos sobre paisagismo – “O jardim sensorial e suas principais características”, de Beatriz Chimenthi e Pedro Miguel Cruz, e “O paisagismo resgatando as cores da cidadania”, de Christiana Rocha – que pontuam, direcionam ou complementam o nosso fazer na Escola de Design.

Num primeiro momento, é difícil pensarmos em periodicidade. Entretanto, temos certeza da continuidade de nosso trabalho. Que esse seja apenas o primeiro passo, uma semente que esperamos ver germinar e produzir bons frutos.

Acessibilidade no dia a dia

Siva Bianchi, arq, M.Sc.

Outro dia, no aniversário de minha filha, preparei-lhe uma surpresa. Ela gosta muito de determinada torta, e assim, como "bolo de aniversário" encomendei sua guloseima preferida. Chegado o momento de cantar os parabéns fui à cozinha preparar a surpresa, ou seja, tirar a torta da caixa onde estava escondida, colocar em um prato e ascender as velinhas. Para isso fechei a porta da cozinha, que na minha casa tem ligação direta com a sala. Arrumei tudo e com a bandeja nas mãos, como abrir a porta? A maçaneta é daquelas redondas, lisas, (figura 1a) bonitas mas não funcionais pois preciso de ter uma das mãos livres para conseguir abrir a porta.

Neste momento, em uma situação não tão incomum assim, e mesmo tendo o aspecto dito 'normal', não consegui abrir a porta. E aí? Quais as soluções? Bem, a primeira que passa pela cabeça é trocar a maçaneta por uma em forma de alavanca, (figura 1b) mas também é possível trocar a porta por vai e vem ou mesmo colocar um sensor de presença. Ou seja, as soluções são várias, mas devem ser propostas quando da especificação do projeto.

a maçaneta redonda b maçaneta de alavanca Fig. 1 a e b - Imagens do site http://www.pado.com.br/fechaduras.php.

Quando se fala em acessibilidade, qualidade daquilo que permite fácil acesso, talvez em função da mídia associa-se a permitir o acesso àquele bem a pessoas que têm alguma disfunção, com alguma deficiência, nem que seja passageira. Geralmente casos como o citado acima não faz parte deste grupo, que mal existe, para uma pessoa dentro de padrões normais, pousar o objeto que se tem nas mãos para se abrir uma porta?

O cotidiano é esquecido ou pouco lembrado e mais precisamente no local onde se vive, em nossa casa, onde se passa grande parte do tempo. Nunca é demais lembrar que uma casa acessível é também mais segura.

Falar de acessibilidade no cotidiano tem-se como ponto importante o lugar onde se mora. É dentro de casa que acontecem grande parte dos acidentes, mas que podem ser evitados ao se tomar pequenos cuidados.

É um assunto que interessa a um grande número de profissionais, das mais diversas áreas de conhecimento desde designers, arquitetos, até a médicos.

No caso mencionado no início deste artigo, como abrir uma porta com as mãos ocupadas, pode ser vivido por inúmeras pessoas, cabendo a profissionais que lidam com projetos de espaços ou objetos que são utilizados constantemente pelas pessoas pensar suas possibilidades, e propor formas de resolver a questão, ou mesmo propô-la a outros profissionais. Desta maneira, maçanetas em forma de alavanca ou outro tipo que possam ser acionadas por cotovelos, braços ou mesmo por outros objetos como bengalas, devem ser propostas independente da edificação ser específica para deficientes, idosos, mas pensando que podemos ser um deles ou mesmo ter alguma necessidade especial em determinado momento. Sua altura também passa a fazer parte dos vários conhecimentos que as pessoas adquirem "inconscientemente". É quase o mesmo de quem dirige um veículo. Se for "pensar conscientemente" em tudo que deve fazer para movimentar o veículo, provavelmente se envolverá em algum acidente, mas o motorista simplesmente sabe o que fazer.

Continuando pensando na fechadura de uma porta, sua maneira de trancar, se interna, de quartos, banheiros ou externa, aquela que dá acesso à casa permite também varias questões a serem estudadas. Imaginando, por exemplo, um machucado no polegar, este pequeno acidente limita os movimentos e mover uma chave convencional se torna difícil. Pensando nas pessoas que por um acaso têm algum problema na articulação dos dedos, como é o caso de uma artrose , que pode limitar os movimentos dos dedos, impedindo alguns movimentos. Existem fechaduras a cartão, que ainda são caras, mas pode-se pensar em outros tipos de fechaduras, como as dos veículos, que são acionadas sob pressão, e que permitem maior facilidade para destrancar ou trancar uma porta, ou mesmo aquelas que lembram teclado de telefone ou calculadora, basta digitar seu código de acesso, sua chave, e para destrancar ou mesmo abrir a porta. Muitos modelos já existem, para as mesmas funções em outras condições, deve-se então pensar em utilizá-las.

Se a porta foi aberta, falta agora ultrapassá-la, qual deverá ser dimensão para permitir acesso fácil?. Geralmente as portas de acesso à residência são as mais largas para permitir o acesso de equipamentos, mobiliário, ou seja, pensa-se em bens materiais e a pessoa é esquecida. Os ditos normais não têm problemas para ultrapassar um vão, mesmo mais estreito, pode-se virar de lado, mas aí sim, deve-se pensar em todo o tipo de pessoa, seja na mãe com seu filho de colo até aquele que necessita de uma cadeira de rodas para se locomover. Neste caso específico, o projeto é que deve contemplar esta exigência, principalmente nas circulações. Um vão, de maneira geral pode ser modificado, mas uma circulação necessita de grande obra para ser alargada e permitir que a pessoa que não consegue se locomover sem que seja de cadeira de rodas possa passar sem destruir as paredes da circulação e o mais importante, possa passar sem precisar ser empurrada. Assim haverá a possibilidade de um deficiente motor morar sozinho ou se alguém que more só se acidentar não precisar sair de casa para ficar curado.

Voltando ao bolo de aniversário sobre a bandeja, qual a dimensão para a pessoa passar segurando a bandeja? E se fosse uma cadeira? Manter dimensões confortáveis torna o ambiente mais agradável e mais seguro ao serem evitadas batidas contra portas, maçanetas ou obrigar a alguns malabarismos os habitantes da residência.

Outra questão importante na definição de um projeto para uma residência é pensar sobre sua durabilidade. Não falo aqui tanto dos móveis e equipamentos que realmente têm um tempo limitado de vida, mas a própria edificação. Imóveis são feitos, geralmente, para durar anos, 40, 50 anos sem grandes reformas, e está certo que o homem vive, atualmente, por volta de 80 anos. Na vida humana, vários ciclos se sucedem. Ao nascer o homem, a criança, necessita de grande aparato para seu desenvolvimento, como, carrinhos de bebe, banheiras especiais, quando aprendem a andar precisam de espaço. Depois surgem os triciclos, as bicicletas, tornam-se adultos e envelhecem necessitando também de uma série de equipamentos para melhorar suas habilidades, como bengalas, apoios e espaços que evitem os tão preocupantes acidentes como as quedas.

Ao se pensar que qualquer objeto arquitetônico é feito para o homem, deve-se ter sempre em mente suas dimensões, seu ciclo biológico. Como diz Lucio Costa , "arquitetura é para ser vivida" importando ao arquiteto "naqueles sucessivos processos de escolha a que afinal se reduz a elaboração do projeto" pensar no homem, na técnica mas principalmente agir com intenção. Imaginar como age a pessoa no espaço criado para abrigá-lo, imaginar o passar dos anos e intencionalmente propor soluções que permitam ao homem sua facilidade de locomoção neste ambiente, que se tornará de uso diário.

VISITABILIDADE

Ao pesquisar sobre o Design universal deparei-me com uma nova palavra: visitability, que traduzi para o português como visitabilidade. Para eu compreender o conceito foram necessárias muitas pesquisas, já que é difícil entender como ela se diferencia do Design Universal. Abaixo são colocadas algumas explicações que, espero, possam trazer algum esclarecimento.

Eleanor Smith, acometida por pólio como criança, foi quem lançou o conceito de visitabilidade, em Atlanta - EUA, e fundou o "Concrete Change" . Essa filosofia baseou-se na crença de que as pessoas com dificuldade de locomoção poderiam ter acesso básico às novas casas construídas de maneira que elas pudessem ser visitáveis ou acessíveis, e diz respeito às casas que foram preparadas não só para a acessibilidade de pessoas portadoras de deficiências visitando casas de não-deficientes, como também para possíveis necessidades futuras dos não-deficientes. Essas casas permitem às pessoas com limitações visitar amigos, manterem-se na comunidade onde possam criar vínculos e minorar os problemas relacionados ao isolamento. Trata-se de um movimento que pretende alterar as bases da prática construtiva, de maneira que todas as casas novas, projetadas ou não para proprietários com alguma deficiência, ofereçam condições de tornar as casas com fácil acesso para as pessoas que venham a adquirir dificuldades motoras. Podem-se usar várias palavras como: acessibilidade, desenho universal, casas para a vida toda (life-time homes), adaptáveis, visitáveis....essa última é usada para definir as seguintes metas:
  • O foco principal é a casa - não é para locais públicos como: restaurantes edifícios públicos e etc.
  • Todas as casas - não só as casas dos que precisam;
  • Diminuir para itens essenciais a lista do que se deve fazer para transformar uma casa acessível. Permitindo, pela facilidade, que as casas sejam acessíveis a curto prazo.

A visitabilidade está ao alcance de todos, é sustentável e de fácil adaptabilidade para projetos de casas novas. Para uma casa ter visitabilidade deverão ser implementadas apenas três medidas simples e práticas:

  • Uma entrada sem degrau e um caminho acessível;
  • Uma porta de entrada da casa larga o suficiente para permitir a passagem de uma cadeira de rodas;
  • Acesso a pelo menos um banheiro da casa, podendo esse ser um lavabo.

Transformando esses itens em uma frase, pode-se dizer: entrar e sair de casa, e usar o banheiro; essencial para uma visita, como também para sobreviver em sua casa, estando com algum tipo de problema de locomoção temporário ou a longo prazo. Essas três medidas pretendem trazer benefícios para todas as pessoas, mesmo que de imediato elas atendam às pessoas com deficiências. Não se deve esquecer que os residentes envelhecem e as chances de adquirir algum tipo de dificuldade aumentam com a idade. As casas construídas como visitáveis tornam as modificações para atender a qualquer tipo de necessidade, mais fáceis. Isso com certeza encoraja os proprietários, por possibilitar que mantenham suas independências e privacidades à medida que forem envelhecendo, o que é bem melhor do que serem obrigados a deixar suas casas.

Diferente das outras formas de detalhes que permitem a acessibilidade, a visitabilidade não assegura a acessibilidade em toda a residência, mas pelo menos garante que os principais locais da casa são acessíveis a uma pessoa em cadeira de rodas. O Desenho Universal, a nível social, permite completo acesso e participação em acontecimentos comunitários e a interação entre as pessoas.

A visitabilidade é um importante passo para permitir que se torne possível o acesso universal a vida da comunidade. Esse conceito com certeza está mais ligado aos locais onde há uma forte tendência de se morar em casa e por essa razão os EUA e a Inglaterra foram os primeiros a perceberem que essas não estavam preparadas para a acessibilidade. A Inglaterra foi o primeiro país a possuir uma lei, a qual exige que casas de 1 e 2 quartos sejam visitáveis, acesso básico as casas unifamiliares. Aqui no Rio de Janeiro, pela legislação, tem-se garantido o acesso às edificações multifamiliares e públicas através de rampas, as quais nem sempre são tão acessíveis assim.

Será que para uma casa, na qual o proprietário não possui nenhum tipo de dificuldade existe essa preocupação de garantir acesso a qualquer pessoa? Essa talvez seja a questão mais interessante dessa palavra visitabilidade. A Visitabilidade pretende que todas as casas e edifícios sejam projetados e construídos com esse acesso básico. Como o nome sugere, o princípio desse projeto é permitir que pessoas com deficiências possam independentemente ter acesso a casas de pessoas não deficientes. Permitem também aos não-deficientes continuarem a residir em suas casas, se porventura eles adquirirem alguma deficiência, crônica ou temporária. Inclusive as pessoas que estão sob algum processo de doença ou recuperação podem retornar às suas casas mais cedo, continuando sua reabilitação sem necessidade de internação. Casas com acesso básico podem ser negociadas com pessoas com deficiências, as quais conseguem modificá-las com mais facilidade, de acordo com as suas necessidades.

Estas com certeza gastariam mais adaptando uma casa sem acesso ou em uma casa construída para um deficiente específico. O custo de colocação desses itens que garantem a visitabilidade em casas novas, nos EUA, é de $25/casa em contrapartida, fazer o retrofit (modernizar) uma casa para acomodar, esses mesmos itens, custa muito mais. Atualmente quando as pessoas ficam mais velhas ou com alguma dificuldade de locomoção, elas são forçadas a mudar de casa, já que o custo de adaptá-las é alto. Porém, se os detalhes são incorporados no início da construção da casa, eles acrescentam pouco no custo da obra. Se a demanda por esses detalhes e produtos aumentar e se tornar comum, a produção em massa provavelmente tornará esses produtos mais baratos.

A visitabilidade é um grande passo para o Desenho Universal a nível mais amplo, já que a facilidade para a aplicação de detalhes para a visitabilidade é maior. Pelo menos em um futuro próximo, mais casas visitáveis serão construídas do que casas que estejam completamente dentro dos preceitos do Design Universal. O projeto para a casa visitável é consistente com o conceito do Design Universal. Pode-se simplificar e definir que a visitabilidade está mais ligada ao conceito da casa, já o Design universal é um conceito mais amplo, engloba o Desenho Industrial, os objetos. Finalizando e esperando ter ajudado no entendimento dessa nova palavra, pode-se afirmar que se a acessibilidade funciona, ninguém a percebe, mas se não funciona, ela com certeza chama a atenção.

Liane Flemming, arq., M.Sc

Referências Bibliográficas
CASSELMAN, Joel. Visitability: a new direction for changing demographics APA - American Planning Association. Disponível em: http://www.planning.org/affordablereader/pracplanner/visitabilityvol2no4.htm Acessado em: março 2005
NCDDR, National Center for the Dissemination of Disability Research. Accessibil-ity in Our Built Environment: Visitability. Technical Brief Number 8. Disponível em: http://www.ncddr.org/du/products/focus/focus8/ Acessado em: março 2005
RAGGED Edge on Line. Visitability: becoming a national trend? Ragged Edge Magazine on line. The Disability Rag's. Disponível em: http://www.raggededgemagazine.com/ Acessado em: março 2005 ? SMITH, Eleanor. Visitability Defined 2003. Concrete Change - Disponível em: http://www.concretechange.org/. Acessado em: março 2005
The built environment. Dansk Center for Tilgængelighed (Danish Centre for Accessibility) - Disponível em: http://www.dcft.dk/eng/built. Acessado em: março 2005
TRUESDALE, Steven, STEINFELD, Edward, Arch.D. Visit-Ability: an approach to universal design in housing. Rehabilitation Engineering Research Center (RERC) on Universal Design at Buffalo. Disponível em: Acessado em: março 2005

Resenhas: Monografias apresentadas no curso de Pós-graduação em Design de Interiores - UVA

As monografias estão disponíveis na biblioteca da UVA, Campus Barra: Av General Felicíssima Cardoso nº 500)
Título: Centro de convivência de Idosos Autor: NEGRÃO, Maria Helena de Albuquerque. Centro de Convivência de Idosos. Rio de janeiro: Universidade Veiga de Almeida, Escola de design, 2004.Monografia (Especialização em Design de Interiores).
Proposta para aumentar/ melhorar a qualidade de vida da terceira idade. Desenvolver conceito mais amplo de moradia, objetivando infra-estrutura habitacional projetada com segurança, acessibilidade e conforto ambiental necessários ao bem estar dos idosos. Proporcionar a integração com outras pessoas, compartilhar idéias e experiências, realizar atividades de recuperação física e intrapsíquica; de lazer e entretenimento favorecendo a auto-estima e o exercício da cidadania.
Titulo: Ambiente Seguro Autor: GADIA, Beatriz Lima Cardoso. Ambiente Seguro, Rio de janeiro: Universidade Veiga de Almeida, Escola de Design, 2003, Monografia (Especialização em Design de Interiores).
Desenvolver ambiente seguro para um grupo especial de usuários, os idosos, utilizando diversas teorias e modelos já existentes como elementos de referência para a elaboração de projetos arquitetônicos e de interiores, onde essa faixa da sociedade sinta-se á vontade para ser a fazer o que quiser. Propocionar integração, evitando o isolamento do idoso através de um local acessível, seguro e funcional com iluminação ventilação natural e mobiliário adequado.

Resenhas: Tatiana Brandão.