segunda-feira, 24 de outubro de 2011

VIVENDO SEM BARREIRAS: UMA REFLEXÃO SOBRE A ARQUITETURA, O DESIGN E A NATUREZA.


O presente artigo não pretende ser conclusivo e sim um portal de idéias que visa, em primeiro lugar, chamar atenção para o papel de alguns projetos arquitetônicos e a relação que estabeleceram com a natureza e, posteriormente nos ajudar a refletir sobre a possibilidade de uma vida sem barreiras no contexto das sociedades contemporâneas.
Para que possamos começar a nossa investigação é necessário voltar ao passado remoto e nos defrontarmos com as construções das primeiras sociedades primitivas.
Segundo muitos pesquisadores os povos do período neolítico estabeleceram desde muito cedo uma relação estreita com a natureza e o cosmos, cultuando principalmente o Sol e a Lua. Podemos citar como exemplo a primeira construção que marcou a história da arquitetura, os famosos círculos de pedra de Stonehenge.
O design desta construção nos remete a proposta de um cenário cosmológico e circular que possivelmente pode estar relacionado a representação de eventos astrais. Porém, assim como Stonehenge, outras construções foram erguidas provavelmente com finalidades semelhantes. Estudiosos sobre o assunto chamam atenção para a possibilidade desses espaços arquitetônicos terem servido para rituais religiosos de conexão astral. Certo ou errado, o fato é que o homem, desde os primórdios, procurou estabelecer de alguma forma uma relação entre a arquitetura e a natureza através da sua intenção de chegar às alturas.
Podemos avançar agora um pouco mais para nos depararmos com as pirâmides projetadas no Antigo Egito. Para os egípcios as pirâmides representavam os raios de sol em direção a terra e alguns estudiosos chegaram a crer que o design das pirâmides seria a possível representação da constelação de Órion. Por este motivo o local de construção desses projetos era escolhido com critério já que a sua posição dependia da sua relação com a natureza. Muito embora pirâmides representassem a importância de uma vida espiritual para os egípcios, não podemos deixar de ressaltar que naquele tempo esses projetos arquitetônicos já eram símbolo do poder material dos faraós.
Caminhando mais à frente na História da Arquitetura, verificamos que a necessidade anterior de interligar as construções arquitetônicas à natureza e ao cosmos acabou se invertendo num desejo gigantesco de demonstração de poder. Podemos citar como exemplos, as catedrais góticas, os arranha-céus de Nova York e os novos prédios situados no Japão, na China e nos Emirados Árabes, onde se destaca o Burj Dubai, inaugurado em 4 de janeiro de 2010 e que possui 828 metros de altura e 160 andares.
Porém, essa necessidade de ascensão através de projetos arquitetônicos gigantescos e de design altamente elaborados nos coloca hoje diante de uma grande contradição.
Enquanto o homem rompe barreiras verticalizando suas construções de forma a representarem a extensão do seu poder material, a terra se mostra inquieta e insegura, e continuamente vem derrubando e desintegrando cidades inteiras mostrando assim a força do seu poder e a fragilidade dos alicerces de algumas construções, obrigando o homem a repensar suas formas de moradia e a sua sobrevivência nas cidades. Muito distante está o projeto arquitetônico primitivo que estabeleceu uma integração direta com a natureza. A arquitetura contemporânea já deixou para trás as necessidades espirituais e contemplativas dos projetos antigos e vem reafirmando a tendência dos tempos atuais cuja vida é cada vez mais dinâmica e materialista, o que se traduz na maior parte por construções em formato de torre que se espelham num sistema de prédios e condomínios simbolizando a expansão imobiliária das grandes cidades.
Entretanto, se o homem está conseguindo superar as barreiras para a construção de prédios gigantescos como o já citado Burj Dubai, ao mesmo tempo está criando outros limites, uma vez que a vida cotidiana nessas imensas torres contribui para a perda do contato direto com a realidade, isso porque a própria torre sugere uma cidade dentro da cidade, com regras e quem sabe até suas próprias legislações, estabelecendo assim fortes limites de convivência social e reorganizando o espaço físico do homem que antes era horizontal e que agora se estabelece através de metros e possíveis quilômetros verticais.
A partir de uma reflexão sobre as primeiras construções cujos designs favoreciam a aproximação do homem com a natureza, até as construções das torres arquitetônicas de design vertical, que albergam pequenos pulmões de áreas verdes em seu interior mas que contribuem para estreitar a relação social nas grandes cidades, nos perguntamos até que ponto os projetos arquitetônicos e de design contemporâneos, estão nos permitindo uma convivência mais plena com a natureza, a sociedade e a cidade? A arquitetura e o design dos prédios contemporâneos podem ser muito mais do que meras demonstrações de poder das grandes potências econômicas através da necessidade humana de alcançar as alturas?



Dayse Marques

Mª em História da Arte
Rio de Janeiro, 12 de outubro de 2011

(o conteúdo do artigo é de responabilidade do autor)