segunda-feira, 5 de setembro de 2011

O charme de Paris e a tradição de Londres acessíveis para pessoas com deficiência



Sou Ricardo Shimosakai, paraplégico e meu mochilão à Europa continua pela França e Inglaterra. Na edição passada, falei de Portugal e Espanha. Apesar das semanas longe da família e amigos, a imensa felicidade que sentia não dava brechas para a saudade. Parti de Barcelona e cheguei à estação Gare d’Austerlitz em Paris. Fui logo até o albergue Le D’Artagnan, mantendo meu padrão de viagem no melhor estilo aventura. E saí em seguida, feliz da vida, para conhecer essa cidade mágica. A rede de transporte da Paris é organizada de forma que linhas inteiras de ônibus acessíveis são posicionadas de maneira estratégica, alcançando todos os pontos turísticos.

Minha primeira parada foi o Centro Georges Pompidou, um grande centro cultural aparentando uma construção virada do avesso, com canos de água, eletricidade e ar condicionado diferenciados por cor e totalmente à mostra. O 6º andar oferece uma deslumbrante vista panorâmica da cidade, de onde é possível ver a Torre Eiffel, o Tour Montparnasse e a Montmartre, local da Igreja Sacré Coeur. O grande pátio à frente da entrada reúne diversos artistas de rua, como um circo a céu aberto.

No rio Sena, a Ile de La Cite é o endereço da Catedral de Notre Dame, palco de grandes acontecimentos como a coroação do imperador francês Napoleão Bonaparte. Os gárgulas, figuras monstruosas comumente presentes na arquitetura gótica no alto das torres, são a parte saliente das calhas dos telhados. O Corcunda de Notre Dame é uma lenda que foi transformada em livro, filme e até num dos clássicos desenhos de Walt Disney. O enredo conta a vida de um menino com deformidades, abandonado na catedral, que cresce escondido e um dia vê uma bela jovem sendo maltratada. Decide então sair de sua clausura para protegê-la, acendendo uma intensa paixão. È uma ficção, mas que de certa forma representa a realidade de muitas pessoas com deficiência.

Algumas quadras adiante iremos encontrar o Museu do Louvre, que é o maior e mais visitado museu do mundo com um acervo de mais de 350 mil objetos inestimáveis. Sua entrada, na forma de uma pirâmide de vidro, já é uma atração. Para percorrer o Louvre por completo, mesmo só passando, sem parar diante das obras, seriam necessários vários dias. Por isso concentre-se em suas obras mais importantes como a Vênus de Milo, que representa a deusa Grega do amor Afrodite, e a Mona Lisa de Leonardo da Vinci com um olhar que parece lhe perseguir por todos os cantos da sala. É um dos museus mais completos que já vi em relação à acessibilidade e inclusão. Além de possuir acesso a todos os lugares, mesmo com seu tamanho gigantesco, tem mapas de orientação à pessoa com deficiência, e programação de visitas a pessoas com deficiência visual e auditiva.

A Ponte Royal dá acesso ao Museu d’Orsay, que foi originalmente erguido para ser uma estação de trem. Destaca-se pela preciosa coleção de obras de Vincent Van Gogh, além de outros artistas ilustres como os impressionistas Manet, Monet e Renoir, e dos Pós-impressionistas Matisse e Toulouse-Lautrec. Mesmo quem não tem muito conhecimento sobre arte, acaba saindo maravilhado do local.
Ali perto é possível embarcar num passeio a bordo de um Bateau Mouche Restaurant, as famosas embarcações turísticas francesas, degustando a deliciosa culinária local, enquanto aprecia a fantástica arquitetura parisiense sob outra perspectiva. Esse passeio feito à noite é simplesmente fora de série. Depois siga para o Hotel Nacional dos Inválidos, que foi encomendado por Luis XVI para abrigar soldados inválidos, e onde alguns vivem até hoje. Inválido é como eram chamadas as pessoas com deficiência naquela época. Possui uma vasta história sobre a guerra, inclusive o túmulo de Napoleão. Quase ao lado, fica o Museu Rodin, residência do artista Auguste Rodin, escultor da famosa obra “O Pensador”, exposta em seus jardins.

O maior símbolo da França, a Torre Eiffel, possui o nome de seu criador Gustave Eiffel, e foi construída em um tempo recorde de dois anos. Essa imensa estrutura metálica, com mais de 2,5 milhões de rebites, consome 50 toneladas de tinta em sua pintura a cada 7 anos. A noite assume uma atmosfera mais romântica, devido sua iluminação que pode ser vista a quilômetros de distância. Se seguir até o Palais de Chaillot, além de lindas esculturas em bronze e majestosas alas em curva, também terá uma das melhores vistas da cidade.

Terminei a parte urbana visitando o Arco do Triunfo, concebido por Napoleão como símbolo de seu poder militar. Este monumento fica num ponto da cidade onde convergem 12 importantes avenidas, dentre elas a célebre Champs Elysées.

Aproveitei para ir a Disneyland Paris, situada a 32 quilômetros do centro, e dividida em dois grandes parques. A Disney desenvolveu critérios próprios de acessibilidade em seus brinquedos e atrações, utilizados em todos os parques da rede ao redor do mundo. O Walt Disney Studios Park é o local para descobrir o mundo fantástico do cinema e televisão, com quatro zonas, onde são apresentadas atrações e espetáculos alucinantes. A tradicional Disneyland Park é dividida em cinco áreas temáticas, onde a magia prevalece.

Hora de partir para meu último destino. A viagem de 495 quilômetros de Paris a Londres, pode ser feita através de um trem de alta velocidade em apenas duas horas e 15 minutos, por um túnel sob as águas do Canal da Mancha.

Fiquei hospedado no albergue YHA London Thameside, localizado na periferia. Dali segui ao Tate Modern, instalado às margens do rio Tamisa, num imenso local onde era a estação de luz Bankside Power Station. Na outra margem, algumas quadras acima, fica a Catedral de São Paulo, local perfeito para assistir um culto à tarde, ouvindo as vozes do coro. Contemplar a beleza ímpar de seu interior, no local onde foi realizado o casamento de Charles e Diana, é como se sentir parte da corte real.

Os famosos ônibus londrinos de dois andares possuem acessibilidade através de uma rampa acionada por um controle da cabine do motorista. Até o tradicional táxi pelo seu tamanho robusto, possui rampa e banco basculante, tornando possível a entrada do passageiro, junto com a cadeira de rodas. Mais que um transporte é uma grande atração. Através dele fui até o British Museum, o mais antigo do planeta. Possui 6 milhões de itens que abrangem 1,8 milhão de anos de civilização. Apesar de possuir atrativos turísticos seculares e dignos de preservação, nada impediu que o local se adaptasse de forma sutil e funcional para dar oportunidade a todos de contemplar suas belezas.
O próximo ponto visitado foi a lendária Trafalgar Square, palco para eventos públicos da cidade, situada à frente da National Gallery, principal museu de arte de Londres. Logo ao lado, a National Portrait Gallery, com lindas obras, como o retrato de William Shakespeare e cadernos com descrições em braile e desenhos táteis, em todos os andares.

Quer mais uma dica? Atravesse o Tamisa em direção à London Eye, para encontrar a maior roda gigante do mundo, onde os passageiros ficam em uma de suas 32 cápsulas que comportam 25 pessoas, num passeio de 30 minutos. As cápsulas proporcionam uma visão total com alcance de até 42 quilômetros, e giram 360 graus graças a um incrível sistema automático de nivelamento. Do outro lado do rio, as Casas do Parlamento compõem um majestoso conjunto ao lado do Big Ben, símbolo maior da pontualidade britânica, com seu barulhento soar das horas. Logo atrás fica a Abadia de Westminster, onde estão enterrados os corpos do físico Isaac Newton e do naturalista Charles Darwin.

Na época do outono na Europa, as plantas assumem diversas cores e tonalidades e as ruas e parques ficam repletos de folhas que caem das árvores, numa verdadeira obra de arte da natureza. Conhecer os parques londrinos passa a ser uma tarefa ainda mais deliciosa. De quebra você ainda vai dar de cara com o Palácio de Buckingham, voltado para o St.James’s Park e o Green Park. E a tradicional troca de guarda é um espetáculo à parte. O Hyde Park, que é a cara de Londres, também é o maior deles em relação à quantidade de área verde. Todos, além de lindos, são acessíveis e planos, facilitando a locomoção.

Perto dali, três locais imperdíveis. O Museu de História Natural, que conta a fascinante história da vida na terra. O Museu de Ciências, cujas exposições interativas mostram o desenvolvimento científico e tecnológico através de séculos, e o Victoria & Albert Museum, simplesmente o maior museu de arte decorativa do mundo.

Fazer compras também é um ótimo programa. A Knightsbridge e a Oxford Street têm lojas de departamentos de elite, enquanto que a Portobello Road é mais eclética e econômica. Vá até a Kings Road se quiser comprar peças de decoração, ou então siga para a Regent Street, onde se encontra a Hamleys, a maior loja de brinquedos do mundo, ou ainda para a Tottenham Court Road, com dezenas de lojas e as novidades do mundo eletrônico. À noite, aproveite para ver o divertido museu Belive It or Not! (Acredite se Quiser!), visitar a iluminada esquina da Picadilly Circus ou passear de riquixá na Chinatown de Londres.

A maioria dos museus e atrações de Londres e Paris é gratuita para pessoas com deficiência, com identificações de acessibilidade visíveis e confiáveis. Como você pode perceber, opções e condições para se divertir não faltam. Então, está esperando o que? Mochila nas costas e boa viagem!


Dica de viagem
Mesmo em uma viagem independente, é sempre bom entrar em contato com associações ou empresas, ligadas à pessoa com deficiência. Caso precise repor sondas uretrais ou consertar sua cadeira de rodas, saberão lhe indicar o local certo onde procurar.



* Este texto foi escrito para a seção Turismo da Revista Sentidos. São Paulo, Editora Escala, ano 8, n.52, p.58-61, maio de 2009.

Nenhum comentário: