domingo, 24 de novembro de 2013

O design do corpo

Quando iniciamos nossa pesquisa com os portadores de nanismo verificamos que uma das questões relevantes no sentido da autoestima estava a sua aparência. Como ser adulto naquele corpo pequeno e muitas vezes com a vestimenta inadequada uma vez que adquirida em lojas infantis? E esta conversa permeava com muito mais frequência o universo feminino. (fig. 1)

  
A roupa (Saltzman, 2008:305) é um elemento de intervenção sobre a morfologia do corpo do usuário e o design(er) deve prever que o resultado terminará criando uma nova condição onde este design existe e se expressa, como um modo de adaptação ao meio social em que está inserido. No momento em que o objeto de estudo são os portadores de nanismos, entendemos que a produção de roupas em larga escala por um lado se depararia com uma demanda relativamente pequena se considerarmos a quantidade de mulheres pertencentes a este grupo além do poder aquisitivo das mesmas, por outro lado se pensarmos como um nicho de mercado verificaremos que a roupa como um produto de design tem um papel importante de inclusão destas portadoras que querem ter além do sentimento de pertença ou, num linguajar mais popular, querem “estar na moda”.

Se a roupa na sua relação com o corpo deve ser entendida como medida de conforto para o usuário, não é compatível com uma mulher de 20, 30 ou 40 anos usar roupas infantis. Conforme coloca Martins (2009), as equipes de criação devem estar comprometidas em libertar o corpo de suas limitações. É fundamental gerenciar a aparência.

O corpo (Saltzman, 2008) adota diversas estratégias no campo da indumentária e cremos que o tecido seja a matéria prima a partir da qual se modifica a superfície do corpo que neste caso está bastante distante de padrões pré-estabelecidos, como se fosse uma nova epiderme. Se existem recursos que permitem criar um movimento de expansão nos tecidos que aumentam sua elasticidade, de modo que a peça de roupa se ajuste em corpos de diferentes tamanhos, silhuetas e idades, é talvez aí que se encontre uma primeira resposta para vestir, cobrir, inserir estas portadoras de nanismo e não necessariamente no molde ou no corte. Como coloca Suzana Barreto Martins (2008:323) “vestir e desvestir são ações relacionadas, a priori, com a facilidade de manejo, combinada com o índice ergonômico físico que avalia aspectos anatômicos, antropométricos e biomecânicos”. (fig.2)
  
Ainda não fizemos pesquisa de campo ampla para tentarmos pensar numa modelagem para as portadoras de nanismo e considera-se que, diante da diversidade de alturas, formas e características dos anões, essa deva ser uma tarefa complexa e que demande tempo de pesquisa. Espera-se que a partir de alguns estudos de caso possamos em uma etapa futura da pesquisa estabelecer diretrizes que objetivam não só uma produção numa escala ampliada das roupas como partir para estudo mais focado na modelagem e na relação do design e o corpo dos portadores de nanismo.

Estudo de caso


No estudo de caso contamos com a colaboração de Laura Marques, portadora de nanismo residente em Teresina – PI. Laura possui grande dificuldade para adquirir roupas que se adequem ao seu biótipo, restando como alternativas alguns modelos infantis, ajustes em modelos adultos ou peças sob medida. Foi feito um levantamento inicial de medidas de Laura, a saber: busto, altura do busto, separação de busto, cintura, quadril, centro costas, altura de perna e altura de braço. (fig.3)


A modelagem para portadores de nanismo apresenta algumas dificuldades, destacando-se a desproporção entre o tronco e membros. Para o desenvolvimento da peça foi necessária a aplicação de dois métodos distintos: a construção de bases do corpo a partir do método MIB (Modelagem Industrial Brasileira) adaptadas a uma nova escala e as medidas de Laura, aliada ao método denominado Moulage ou Drapping, que consiste em desenvolver peças diretamente sobre o corpo da cliente, ou nesse caso, sobre um manequim com biótipo semelhante. Foram desenvolvidas duas peças, uma túnica em mousseline e uma calça legging em malha com elastano. Embora sejam peças simples, as bases servirão para que no futuro sejam desenvolvidas outras peças dentro da mesma estrutura, com detalhamento diferente.
  
Com base nesse primeiro estudo de caso pretende-se compreender melhor as dificuldades da modelagem para portadores de nanismo. Neste caso optou-se por modelagem  ampla para favorecer os movimentos. Decote canoa e mangas que caem em cascata de godê trouxe leveza e à peça. Como complemento, a produção de uma legging, em malha leve de algodão com elastano.

Atualmente existem muitos tecidos desenvolvidos para várias aplicações, e a roupa deve atender a algumas demandas dentre elas a usabilidade e o conforto. Segundo Martins (2009) nem sempre os novos produtos de moda atendem a peculiaridades físicas de seus usuários (podemos citar os obesos, idosos, portadores de necessidades especiais...) e problemas são evidentes nesses segmentos. Devemos portanto estabelecer ou compreender as propriedades ergonômicas e os princípios de usabilidade como variáveis norteadores para pensar a roupa inclusive com mais qualidade.

O objetivo do estudo aqui apresentado não é criar uma coleção específica ou modelos para uma pessoa. Com a expansão da pesquisa pretende-se que sejam feitos outros estudos de caso, para que com a diversidade de biótipos existente, sejam criadas diretrizes projetuais para serem aplicadas a modelagem para portadores de nanismo.

Algumas dessas diretrizes já puderam ser identificadas no que se refere ao alongamento da silhueta, conforme observações do professor Roberto Abreu:
- produções monocromáticas criam uma linha horizontal no visual;
- coordenar as peças sempre com base em um mesmo tom (claro ou escuro), assim, não são criados cortes bruscos que achatam a silhueta;
- “não” para babados, laços ou figuras infantilizadas, para não passar uma impressão errada com a produção;
- boa opção são roupas que chamam a atenção para os ombros e o colo, assim desvia-se o olhar do restante do corpo e da altura;
- os comprimentos menores, criam uma aparência longilínea, assim shorts e saias curtos e minis são uma boa pedida;
- o segredo está em quanto o sapato esconde os pés: quanto mais alta for a gáspea (parte da frente que cobre os dedos) do calçado, mais baixa fica a aparência. Nesse caso tênis, botas e oxfords não são aconselhados;
- na hora de dar o toque final ao look com os acessórios, deve-se tomar cuidado: tudo aquilo que é grande para as mais altas ficará ainda maior, achatando a silhueta.

Vale ressaltar que a roupa é uma forma de comunicação onde se compartilham valores, ideais e estilos. O processo é transformar o individual e utilitário no coletivo (Miranda: 2008,15). Esquemas simbólicos se misturam as necessidades propriamente ditas. Como fazer esta leitura com as portadoras de nanismo posto que estes símbolos ficam aquém daquilo que elas efetivamente podem adquirir?


Ilustrações
                            figura 1: autoestima x aparência: como ser adulto num corpo pequeno


figura 2: Diversidade de corpos do homem considerado “normal”

 


 figura.3: Laura Marques, 96cm de altura


                                            figura 4: Peças desenvolvidas para Laura Marques


Referências Bibliográficas


ABNT 9050: 2004 – Acessibilidade a edificações, mobiliário, espaços e equipamentos urbanos
Alonso Lópes, Fernando. Accesibilidad en las viviendas: síndromes y remedios. Boletin CEAPAT, n.27, Madrid, 1999, p. 3.
Barros, Cybele. A casa segura. Rio de Janeiro: Papel Virtual, 1999.
Cervan, M; et al. Estudo comparativo do nível da qualidade de vida entre sujeitos aconplásticos e não aconplásticos. [s.l.]: J Bras Psiqu, 2008.
Davis, Gary. About: ergonomics. Disponível em: http://www.designcouncil.org.uk. Acessado em: abr. 2005.
Hartje, Sandra. An incentive program for Universal Design in single-family housing using LEED as a model. ICADI International Conference on Aging, Disability and Independence. Disponível em: http://icadi.phhp.ufl.edu/2003/presentation.php?PresID=129. Acessado em: jun. 2005.
Iida, Itiro. Ergonomia, projeto e produção. São Paulo: Edgard Blucher, 1990.
Martins, Suzana Barreto. In dObras v.3, n.7, out. 2009, p. 84-87.
Miranda, Ana Paula de. Consumo de moda. A relação pessoa-objeto. São Paulo: Estação das Letras e Cores, 2008.
Mistura, G. L'abito mutante. Milão: Modo, 1999.
Pires, Dorotéia Baduy Pires (org). Design de moda: olhares diversos. Barueri/SP: Estação das Letras e Cores, 2008.
Moraes, Anamaria; Mont’Alvão, Cláudia. Ergonomia: conceitos e aplicações. Rio de Janeiro: 2AB, 1998.
Rybczynski, Witold. Casa: pequena história de uma idéia. Rio de Janeiro: Record, 2002.

Schilder, Paul. A imagem do corpo: as energias construtivas da psique. São Paulo: Martins Fontes, 1980.

autores: Lourdes Luz e Nara Iwata

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