sábado, 22 de agosto de 2009

Imagem, Beleza e Incapacidade: o paradigma do nanismo.

“É preciso superar a vergonha do corpo e da mente, do julgamento alheio para levantar a auto-estima.” (Montaigne).

Segundo o Aurélio o Nanismo “é um acentuado subdesenvolvimento da estatura”. E Anão significa “o individuo de estatura abaixo do normal”.

Será possível mudar paradigmas relacionados ao tema do Nanismo? Será que os anões podem encontrar em seu corpo uma adequação entre a imagem, a beleza e a capacidade de ser quem se é? São muitas as questões sobre a educação, a sociedade e a cultura do nanismo.

Para Esteban Levin, autor do A Infância em Cena (1997): “o ideal de beleza que a cultura da modernidade pretende tende a equiparar o corpo com seu modelo, ou seja, com a sua imagem. A utopia do corpo-imagem-­ideal converte o próprio corpo em objeto de prazer narcísico e auto-erótico. Desse modo, o corpo se trans­forma em objeto de culto para cultivar e cultivar-se a si mesmo anonimamente. Definitivamente a modernidade no seu afã consu­mista tende a anular a diferença entre o corpo e a ima­gem modelo. A Incapacidade encarna e marca justa­mente essa diferença que, como efeito dramático, pro­duz a discriminação e a exclusão”.

Quando olhamos para um anão, sentimos a sensação de incapacidade e não encaramos o seu estado humano com toda a sua subjetividade. Então o corpo em sua organicidade passa a ser objeto de zombaria, de desdém e desprezo. O anão por diferentes razões está embalsamado numa imagem social fixa e única e está impedido de criar sua própria imagem. Com isso, o anão se transforma numa espécie de "mutante" orgânico incapacitado.

Na cultura da modernidade, onde a aparência corporal é refém da exigência de uma beleza padronizada, o anão que tem uma incapacidade encarna sinistramente o seu antiestético. A partir daí, uma identidade se forma de maneira anônima que nessa total solidão, a imagem, a beleza e a capacidade se dissipam.

O anão desmente esse ideal beleza e nos convoca a pensar o belo, não na sua superficialidade banal e, sim, como um ato criativo onde se põe em cena a emergência da subjetividade.

O belo aparece quando o anão começa a ver, a sentir, a encontrar o próprio talento e competência, ou quando a partir da demanda do outro pode começar a transformar seus estereótipos em gestos significantes. Nesses exemplos o anão pode produzir além da do que a sociedade e a cultura esperam dele, ou seja, ser o seu próprio estilo.

Nesses atos de criação a função simbólica pode possibilitar a transformação da imagem do nanismo nesse cenário social e cultural, onde o reconhecimento de si e a apropriação do próprio nome possibilitam a condição de ser, de sentir, de pensar e de fazer. Ao invés de ser uma síndrome, um andróide, um mutante, etc...

Torna-se necessário mudar o cenário e proporcionar cenas diferentes e instantes que apareçam o belo jeito de ser de cada um, num ato significante.


Antonio Carlindo Lima

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